Vivemos tempos em que a política e a sociedade parecem dançar num mesmo compasso, mas nem sempre em harmonia. Enquanto a política promete soluções, a sociedade espera milagres; e entre promessas e desilusões, cresce um abismo de desconfiança. Espeitar a política com olhar crítico é mais do que um exercício de cidadania: é um ato de resistência num mundo onde a superficialidade ameaça substituir o pensamento.
A política, em muitos contextos, deixou de ser o espaço do debate e tornou-se um palco de espetáculo. O discurso político é cuidadosamente ensaiado, as palavras escolhidas para agradar mais do que para esclarecer. Em vez de ideias, vendem-se imagens; em vez de convicções, slogans. O cidadão, transformado em espectador, assiste à encenação e, cansado de tanta retórica vazia, afasta-se do processo democrático — abrindo espaço para o populismo e a manipulação.
Mas não é apenas dos políticos que nasce a crise. A sociedade contemporânea, marcada pelo imediatismo e pela polarização, contribui para o empobrecimento do debate. As redes sociais, que poderiam ser ferramentas de diálogo e mobilização, tornaram-se arenas de insultos e desinformação. A pressa em “ter razão” substitui o desejo de compreender. E sem reflexão, a crítica perde força e a indignação transforma-se em ruído.
Espreitar criticamente significa, portanto, ir além da aparência. É questionar os discursos prontos, duvidar dos números apresentados sem contexto, exigir coerência entre o que se diz e o que se faz. É também reconhecer que a mudança não depende apenas dos que governam, mas de todos nós — enquanto cidadãos, enquanto comunidade.
Precisamos recuperar o valor do pensamento crítico, da empatia e da responsabilidade coletiva. Só assim poderemos reconstruir uma sociedade verdadeiramente democrática, onde a política volte a ser o instrumento do bem comum, e não o reflexo dos interesses individuais.
Em última análise, espreitar a política e a sociedade com olhar crítico é um convite à lucidez. É o primeiro passo para deixarmos de ser espectadores e voltarmos a ser protagonistas da história que nos pertence.